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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estruturas de Dominação e Poder na América Latina Século XIX até meados do século XX

            
   Este ensaio tem por finalidade fazer abordagem devida das principais características do devir histórico da constituição do poder temporal em toda América Latina, com suas devidas singularidades, respeitando as diferenças regionais. Para tanto, faz-se necessário um breve toque no processo de independência desses países e o como as respectivas sociedades  formaram-se e foram constituídas. Já sabemos de ante-mão que a colonização ibérica se deu de uma forma absolutamente exploratória, sendo quase inexistente o processo de urbanização e organização social tão comum nos Estados Unidos por exemplo. Dessa maneira, facilmente compreendemos que, no momento de ruptura colonial com suas respectivas metrópoles, além  de estar inserido em um contexto global, as pessoas que faziam parte da elite de então, que tiveram o poder em suas mãos, eram exatamente aquelas que já se encontravam de forma privilegiada de certa maneira, já possuíam o seu “status” social, e por isso tomaram as rédeas dos acontecimentos, com objetivos que serão plenamente esclarecidos neste texto.
              
             A CONSTITUIÇÃO DAS CLASSES DOMINANTES NA AMÉRICA                   
    Para compreendermos as estruturas de dominação e poder surgidas em toda América latina ao longo do século XIX até meados do século XX, precisamos retornar nossa memória ao processo de colonização e independência das então colônias ibero-americanas. Sabemos que esta colonização proferida por Portugal e Espanha, foi feito de maneira patriarcal, patrimonialista e extremamente burocrática, através de uma centralização quase total de poder, com emissários diretos de El-Rei nos mais altos cargos administrativos da colônia, mesmo quando realizado por empresas privadas por incapacidade financeira da Metrópole. Não podemos descartar e subestimar a importância do capital privado que participou do processo de colonização, entretanto é complicado afirmar quem estava submetido ao poder de quem: se As Coroas Ibéricas atendiam aos interesses do Capitalismo Mercantilista ou se esse Capital atendia aos interesses Régios. Provavelmente um e outro- o fato é que pouco importa isso, pois o fim era o mesmo- subjugação, exploração, extermínio.
    Oras, desde já criam-se estamentos muitíssimos bem determinados - escravos, o poder religioso, a nobreza “pura” e a “mestiça”, ou seja, os descendentes de nobres nascidos nas terras coloniais. Temos uma intensa concentração de terras, tendo em vista o capitalismo empregado por aqui, o modelo agroexportador-extrativista. Com o tempo, o comércio intra-colonial ganha força e surge uma classe relativamente significativa  burguesa, que passa a sofrer grande influência de correntes de pensamentos mais liberais provenientes diretamente da Velha Europa, através de seus filhos que iam estudar por lá, seja em Portugal, Espanha, França ou Inglaterra. Aliado às Revoluções Industriais inglesa e posteriormente francesa, um grande interesse externo por maior mercado consumidor, produtor de matérias-primas e independente politicamente, teremos como conseqüência direta o processo de independência desses países latino-americanos. Mas quem foi que comandou este movimento social? Evidente que foi quem detinha o poder, que nesse caso podemos traduzir por capacidade econômica, assim temos os senhores de terras (latifundiários), alguns comerciantes e os chamados “crioullos”, descendentes diretos da nobreza da então metrópole, que muitas vezes ocupavam cargos importantes administrativamente, principalmente a nível municipal. Assim temos configurado de forma clara e distinta a Nova Elite, que comanda militarmente, politicamente e economicamente as lutas por independência. E o resto?! Ah, esses são apenas resto mesmo, meios para um fim bem particular - a divisão do novo Estado prestes a ser formado, como bens de família, neste caso, famílias, uma espécie de merecida herança aos “eleitos” e “iluminados”.
       Não podemos nos esquecer e merece destaque especial, a miscigenação e heterogeneidade dos povos então em formação e sua pouca ou nenhuma noção de nacionalidade. Até hoje podemos perceber isso no interior de vários países, quando tribos indígenas ou outros pequenos grupos de países como Brasil, Paraguai, El Salvador, Colômbia, entre outros, não conhecem sequer a Bandeira Nacional de seus respectivos países. Como podemos falar em Nação, mesmo atualmente, se esta nação não está incorporada na cultura de milhões de pessoas que ainda possuem línguas, culturas, hábitos diferentes? E há 200 anos atrás? Muito menos. Facilmente controlada pela ignorância política e social, pela pouca identificação com a terra onde vivia e a cultura imposta, escravos vindos de outras partes do Globo, índios e mestiços sequer tinham noção do processo histórico no qual estavam submetidos. Intensa exploração e exacerbado preconceito com os nativos, além claro, do fato de estes, em algumas partes terem sido praticamente extintos. Dessa forma, quando este novo Estado é formado,  quase nenhuma consciência social existe. Coesão? Vã utopia! Princípios, ideologias, rumo político, vontade nacional, auto-determinação?! É de fazer rir. Claro que abre-se facilmente caminho para ascensão e consolidação no poder daqueles que já estavam instalados na burocracia da colônia., nas veias contaminadas do Novo Mundo. Essa gente, como já dissemos, latifundiários e pessoas ricas em suas atividades particulares. Presença do Estado nos lugares mais remotos? Quase nenhuma, até porque surgem ( os Estados) ideologicamente como cópias baratas e mal feitas das experiências norte-americanas e francesa, não havia exército, justiça, saúde, educação ou empregos em escala nacional. Assim o frágil poder central não tem como abarcar toda a gama de necessidades dos povos recém-formados. Impõem-se então a figura do cacique, caudilho ou coronel, que guardadas as devidas singularidades regionais e culturais, representam as mesmíssimas coisas, ou seja, o patrono, patriarca, o benfeitor de determinada região aos pobres e deserdados de promissor destino.

                 A FORMAÇÃO DAS OLIGARQUIAS E CONTROLE SOCIAL
       São estas figuras que intrinsecamente tinham condições de gerar “ordem e paz social”, devidamente entre aspas pelo simples fato de que em quaisquer destes casos, os fins sempre justificaram os meios, logo, necessário sendo, a violência, ameaça e o medo imposto aos subjugados, sempre foram largamente praticados para o controle social. Se ainda tivermos em conta, as disputas regionais com o risco iminente de guerra civil em algumas localidades e as diferenças linguísticas dos dialetos falados nas comunidades, a figura deste chefe local constituiu-se como um simbolismo extremo, de um pai que está a proteger seus filhos de todo o mal e perigo externo, seja de uma calamidade natural, seja da fome, ou de grupos rivais. É de certa forma um "sistema feudal" que usa muito bem o sistema capitalista a seu favor, através da exploração e da geração de lucros através da abstração do trabalho. E esforços não serão poupados para isso, muitos senhores serviam como intermediários de favores políticos, de elo com o governo federal e serviços de assistência básica, era quem financiava e comprava a produção do pequeno produtor, era quem cedia terras para subsistência, ou quem dava abrigo e emprego para quem não os tinha. Evidente, que era de seu interesse manter estas comunidades afastadas entre si, tirando quaisquer chances de independência. O não investimento em educação e a manutenção de baixos salários aos empregados ou “clientes” era prática mais que comum. Mas para configurar esta estrutura de dominação era fundamental a presença física (usando um termo romano) do “DOMINUS”. Era a materialização do poder temporal. Se o caboclo entregava seu coração à Deus dentro da Igreja (aqui podemos chamar claramente de Apostólica Romana já que a presença Protestante era quase insignificante, constituindo apenas algumas comunidades quase todas elas autônomas, num modelo eminentemente americano), fora do templo, sua vida, seu corpo, sua mente pertenciam ao seu senhor. Líder seguido sem questionamento, e não podemos nem classificar como fidelidade cega, pois era a única via possível de “ser enxergada”. O pobre não tinha consciência cívica, e nem poderia ser diferente, não poderia se unir e se auto-representar. É dentro deste contexto histórico-social que temos o fortalecimento das oligarquias, ou seja, a ratificação do poder político de um ou mais grupos defendendo os seus interesses em comum. Mas podemos perguntar-nos – não é paradoxal termos famílias rivais ou grupos que se unem politicamente? A princípio sim, todavia a estratégia era a manutenção deste poder estatal, para que ao controlar o estado, seus interesses econômicos estivessem absolutamente garantidos. Quais interesses? O da exportação. A grande maioria desses senhores, como já foi dito, eram donos de terra e dependiam do mercado externo para lucrarem com a venda de seus produtos, que eram matérias-primas de maneira geral, daí também a grande dependência do capital estrangeiro, e assim alianças eram feitas com empresas e grupos estrangeiros para fortalecer o "status quo" vigente. Mas podemos questionar – com o passar do tempo o Estado não se Fortaleceu? A resposta é sim. Entretanto isso só foi possível com alianças feitas juntamente com o poder local para manutenção da ordem civil e controle social, em troca de representatividade à esses chefes e continuidade de seu poder. Assim, quando ocorre de o Estado se encontrar verdadeiramente forte e poderoso, o ocupante destes maiores cargos políticos é exatamente aquele que outrora controlava seu curral eleitoral, ou como foi chamado aqui no Brasil, tinha seu “voto de Cabresto”. A partir daí entra em cena um novo “personagem” – o voto universal!
       Um olhar mais pueril pode enganosamente afirmar : quanto menos gente votar, mais fácil de se controlar! Não! Era necessário fortalecer, legitimar e ratificar este poder. Isto fora feito através do voto, que deixa de ser censitário e passa a ser naturalmente universal. Raciocinemos - um voto censitário, requer uma comprovação de renda mínima, e que não é pouca, assim, só existia aqueles que votavam entre si, pois eram pertencentes as classes dominantes ou da burguesia ascendente, quem votava era quem já tinha dinheiro, e como vimos, era quem detinha  o poder, maior ou menor. Com o passar do tempo, essa população cresce, aumenta a expectativa de vida e a acumulação de riqueza, logo esse “bolo do poder” passa a ficar mais escasso para o contingente crescente, assim se fez necessário aumentar o número votante de pessoas e ratificar no poder aqueles que realmente detinham-no de fato – contado em números de cabeças, não de gados, mas de pessoas, mesmo que de repente se tivesse um menor poder financeiro, caso seu rebanho eleitoral  superasse o do adversário, você teria a chance de ter o poder em suas mãos, podendo  tentar destruir seu oponente político ao ocupar posição de mando.
      Segue-se daí a mesma troca de favores entre patronos e sua clientela, a mesma dependência, o controle de terras e da agricultura, inclusive em muitos casos ampliando-se, e a questão do status social. Oras, desde os tempos coloniais, nossas sociedades em formação sempre foram reféns de títulos, ou seja, a representatividade do Fulano de tal – assim o Beltrano passar a ser respeitado e reverenciado porque é filho, neto, sobrinho, afilhado, enfim, compadrinhado do Fulano por conta que o Fulano é o dono da cidade, região, estado. Tudo isso serve como semente para num segundo momento o fortalecimento do poder central, quando o Coronel, cacique ou caudilho ascende a posições maiores, não livre de guerras, conchavos, falcatruas eleitorais e alianças espúrias, levado sempre pelo desejo de controle e poder do maior número de pessoas, chega aos cargos elevados, constrói-se um processo reverso do inicial – controle estatal. Pode parecer um pouco confuso à priori essa estrutura, porém não nos esqueçamos a dialética do poder- A contradição. Os grupos tinham interesses em comum, mas não confundamos isso com união, igualdade, harmonia, pelo contrário, a briga e a discórdia sempre fora grande entre a Elite,  o importante era que esse poder permanecesse da maneira que estava - entre eles! Assim as rinhas regionais eram comuns, mas a representatividade de toda uma classe não poderia ser alterada! Acrescente-se a isso o contexto externo, chegamos ao século XX e com ele o fortalecimento do capitalismo industrial de Estados Unidos e Inglaterra, França e Alemanha. Países estes que vão de todas as formas disputar mercados, aqui na América também. Assim, por forças maiores, se faz mais que necessário a união com o capital estrangeiro, o que não é novidade, porque em todos os países da América ibérica isto dá-se inicialmente nas brigas de independência e necessidade de reconhecimento internacional. Mas é nessa fase, que o poder privado vai de fato instalar-se nas novas repúblicas, primeiro de maneira indireta através de bancos, empréstimos e comércios de importação e exportação, e depois de forma direta com o aparecimento físico das multinacionais em várias localidades. Desta maneira as elites passam a depender do financiamento do dinheiro estrangeiro e por outro lado aproveitar-se dele. Vejamos: com mais gente votando, é o senhor de terra que providencia o transporte, a alimentação, vestuário e até mesmo moradia aos eleitores para que eles possam exercer seu papel cívico, já que os locais de votação eram em sua maioria extremamente distantes. Além claro do grande feirão de compra de votos e de corrupção do poder burocrático em benefício próprio. Neste momento o mundo já é sacudido pelas idéias comunistas e em 1917 se tem a primeira experiência vitoriosa de um partido comunista – a Revolução bolchevique no Grande Império Russo Czarista. Para uns, acendem-se as luzes de alertas, para outros mais visionários, uma grande oportunidade de aparecimento e disputas : um controle mais sutil, delicado, menos opressivo mas não menos eficaz, pelo contrário, surge - o controle ideológico, partidário e sindical, que irá inundar os Estados, fazendo Dele, não mais o fim em si mesmo, e sim o meio mais eficaz de controle e arregimentação. O que fazia disso, algo demasiadamente filosófico e abstrato às mentes mais impacientes e ambiciosas capitalistas, e foi aí que lentamente começou a ruir o poder do dinheiro, sem ao menos se dar conta, o que é a derrota mais desgraçada de todas – cair tendo a certeza de que ainda se estar por cima. A semeadura fora feita, a colheita torna-se obrigatória, e pacientemente, estes partidos comunistas iriam aguardar mais de meio século na maioria dos casos para verem os frutos. Agüentando perseguições, guerrilhas, ostracismo, entre outras coisas. estes partidos de esquerda vão aos poucos construindo uma base tão sólida, que nem o Capitalismo é capaz de derrubar. Mas olhe-se bem, não nos referimos à uma crença, pois elas podem e são diversas vezes modificadas, falamos de uma convicção, e o verdadeiro comunista é convicto, tudo suporta, tudo aguenta, tudo sofre, tendo sempre em mente seu objetivo final – que ao contrário do que muitos pensam, não é a extinção completa e absoluta do capitalismo. E sim seu controle, sua total subserviência, não se tem prazer em matar seu maior inimigo de forma rápida e eficaz, não,  e a história humana mostra isso, prazer verdadeiro é - antes de vê-lo padecer, é cair cambaleante, torturado e humilhado. O capitalismo domina pelo dinheiro, o comunismo conquista pela mente e o coração. Qual será o mais forte, o objeto abstrato ou o sentimento pulsante? Ninguém morre pela “causa do dinheiro”, mas muitos morreram por suas utopias!

        OS EUA, OS SINDICATOS E O GOVERNO PATRONAL
  Como já debatemos, com a  virada do século, temos uma conjuntura internacional bastante fervilhante: o capitalismo industrial, o “boom” das cidades, aparecimento em massa de fábricas, a modernidade influenciado todos os ramos da vida das pessoas tais como as artes, a política, a economia. Disso devemos apreender que o Estado já se encontra mais soberano do que nunca, pelo menos do ponto de vista político, e centralizado. Vimos que as disputas regionais entre os chefes dominantes eram intensas, porém a nível nacional oligarquias foram plenamente vitoriosas nos seus projetos de Poder. Inaugura-se uma nova fase – interferência norte-americana e os sindicatos.
     Os EUA já se configuravam como uma grande potência mundial, mas tomaram uma postura de isolamento em relação a Europa. Com isso, passou-se a investir demais nos países americanos, subjugando-os a quase total dependência econômica em alguns casos. O capitalismo industrial-comercial se desloca de vez para cá, e como conseqüência, já cansados de tanto longo tempo de exploração, esses novos trabalhadores das cidades, passam a organizar-se através dos sindicatos. Também ocorre o mesmo no campo, mas de forma efêmera e pouco organizada, são raros os casos de sucesso de grupos campesinos, como no México na Revolução de Zapata, onde pagou-se um preço caríssimo, mais de 1 milhão de mortos! Além de que muito o campo sofreu da influência da cidade – pessoas que haviam emigrado em busca de novas oportunidades, ao misturarem-se nesses movimentos, acabavam tentando levar uma espécie de células para seus lugares de origem. Mas evidente, nem tudo foram flores, ao contrário - esses sindicatos passaram a ser controlados de forma indireta pelos governos, como uma maneira de lhes garantir algumas reivindicações e ao mesmo tempo tê-los sob sua tutela. Vimos um exemplo muito claro disso tudo, aqui no Brasil, principalmente na Era Vargas, onde foi um momento de intensas transformações legislativas-trabalhistas,  via-se o Presidente como se fosse um “PAI” dirigindo os seus filhos. Se na cidade ficava mais difícil o controle através da ameaça, violência e controle de empregos, pois que surge nessa época e de uma maneira mais significativa, a classe média, principalmente comercial e artesanal, no campo a história é outro, e os coroneis ainda mandam e desmandam. Sabemos que a cidade por motivos intrínsecos tem toda uma dinâmica própria, o que facilita o desenvolvimento de pensamentos, correntes filosóficas, o questionamento,  organização social, etc. Em casos mais extremos, a polícia passa a ser usada como instrumento particular de auto-proteção do governante e principalmente como modelador social, evitando revoltas, greves, manifestações. Por tudo isso, a melhor maneira da elite conter o ímpeto do povo é atingir-lhes na raiz, no coração, ou seja, na ideologia, e nenhum meio seria mais eficaz que o controle dos sindicatos, que indicavam trabalhadores aos cargos, nomeavam,  distribuíam emprego, fomentavam esperanças ou descrenças, arregimentavam, cuidavam e principalmente serviam-lhe de ponte para o Estado. Controlando quem controlava os sindicatos, de maneira muito sutil controlava-se a grande massa operária. Nunca é demais lembrar que é nessa época que surge um fenômeno conhecidíssimo em nossas páginas históricas: o Populismo, ou seja, sem cair na armadilha de definir com exatidão este conceito tão complexo, pois que se desrespeitaria a historicidade de cada povo e região, podemos dizer de uma forma bem abrangente que foi um período histórico que marcou a aproximação do Estado com o povo, seja através dos sindicatos e controle ideológico, ou com a mitificação de quem o comanda através de intensa propaganda, muitas vezes abusando do nacionalismo, do sentimento de pertencimento e dos clamores populares.
     E qual o papel desenvolvido pelos norte-americanos? O controle do capital e da informação, as duas únicas vias de independência de um grupo social. Era o dólar norte-americano que estava por detrás dos grandes bancos que financiavam as produções agrícolas e industriais, era dólar americano que estava por trás das grandes companhias exportadoras ou de navegação, era dinheiro americano que financiava grupos políticos, eram produtos americanos que passaram a abundar nos portos da Sulamérica e  América central, era dinheiro americano que passa a financiar as tímidas iniciativas industriais regionais, que muitas vezes inclusive estavam atrelados à multinacionais. Além de que, a propaganda norte-americana passa a ser siginificativa, além de seus produtos, a música, seus profissionais, o então nascente cinema que vira febre a partir dos anos 30.
   Com tudo isso podemos perceber, mesmo que de uma maneira mais superficial, porém lógica que, mudaram-se os cenários ou personagens, mais a tragédia continuava a mesma, ou seja, dominar aqueles que não pertenciam a Classe – que tinham instrução, poder, dinheiro, terras, nomes! Os anos passaram, as formas se transformaram, deixaram de ser tão diretas e passaram a ser indiretas, sutis, todavia não menos cruel, pois que nunca permitiu de fato uma ascensão social, naquilo que nos Estados Unidos se conhece como “made yourself”, nunca tolerou-se a diferença,  a contestação ou a organização. Concentrou terras, riquezas, fez do analfabetismo uma prática comum, criou a cultura do jeitinho, dos favores, minou as chances de civilidade para uma nação justa e fraterna e até hoje pagamos o preço de tantas aberrações, em um século construiu-se uma cultura que apenas a história será capaz de mostrar quanto tempo precisará para destruirmos essas instituições corruptas e ineficazes que ainda embrutecem o povo e o humilham, e são obstáculo não só ao progresso, mas ao desenvolvimento de maneira igualitária e sustentável.

A QUARTA REVOLUÇÃO

 Ao longo dos últimos 260 anos, a humanidade se transformou socialmente, economicamente, politicamente e cientificamente, de uma maneira que provavelmente desde o surgimento do período Neolítico nunca antes tenha acontecido. Estamos falando das grandes revoluções conjunturais e estruturais. Primeiro, no século XVIII, a partir de 1750, com a Primeira Revolução Industrial, depois no final do século XIX, a segunda revolução industrial-tecnológica, com a consolidação do capitalismo industrial, o aumento exacerbado das fábricas, a internacionalização das empresas, etc. Mais precisamente desde o início dos anos 90 do século XX, vimos surgir a terceira revolução tecnológica e a mais significativa de todas. Significativa, pois que se as outras duas foram conseqüências de uma mudança nos paradigmas que sustentavam a sociedade moderna, esta terceira ao contrário, foi quem gerou e está gerando essa mudança paradigmática. Ou seja, com o aparecimento do capitalismo, do renascimento, das revoluções religiosas na Europa, o homem passa a desenvolver o que hoje conhecemos como ciência, se põe como centro do universo, amplia sua cosmovisão, ou visão de Universo. Essa profunda mudança de paradigma, filosófico-religioso, culminou com o aparecimento da burguesia, do desenvolvimento das diversas filosofias, das ciências humanas e exatas, de uma reestruturação social quase completa entre outras coisas, o que gerou as revoluções tecno-científicas. Deus perdeu espaço, passou a ter residência quase exclusivamente dentro dos templos religiosos. A busca humana se direcionou ao poder temporal, material, às suas necessidades primevas, ao tátil. Esta terceira revolução à que me refiro, logicamente é a revolução das tecnologias de informação, o computador, o celular, a internet, as redes sociais, a informatização quase que completa do planeta Terra e a conexão quase total de todos. Tudo isso fez e faz uma transformação sem precedentes na organização e nas relações sociais. O mundo torna-se cada vez “menor” e ligado, acabam-se as fronteiras nacionais e com elas as de outros tipos, o homem conhece cada vez mais os de sua espécie, fala línguas diferentes, conhece culturas, gostos, comidas, danças, vestimentas diversas, seu psiquismo se torna refém de uma grande avalanche, seu mundo interior se encontra no meio de um turbilhão, enfim, o homem reinventa-se.
      As duas primeiras revoluções se deram de maneira bem mais gradual que esta última, além de atingirem parte por parte de toda a sociedade, seguiram uma lógica perfeitamente cognoscível. Essa não, nasce grande, e como disse, as duas primeiras são conseqüências de mudanças na cosmovisão da sociedade que resultou em conseqüências no modo de gerar riquezas e do ser social. Já na Terceira Revolução, o que percebemos é que ela parece não ter pai ou mãe, de ter uma ideologia por trás, muito menos um paradigma. No máximo pode ser a conseqüência de uma grande confluência de pensamentos e visões de mundo, provavelmente muito mais em decorrência de um surto de desenvolvimento e uma busca incessante pelo controle do meio e do Espaço, todavia  está gerando um novo paradigma científico, psicológico e social. Se a ciência convencional pensava estar atingindo seu ápice, descobre agora que apenas começa penetrar um caminho tão profundo quanto a ignorância humana, tão vasto como o próprio Universo, que aliás, ainda não entramos num consenso se ele é infinito ou finito, se está em expansão ou retração, assim como a filosofia da ciência não pode afirmar ainda se o conhecimento humano tem ou não seu limite. E isto é a primeira vez que ocorre com o homo sapiens, acho até que é mais revolucionário que a invenção da fala, da escrita, da roda ou do fogo, porém cabe e está aberto novas discussões sobre esse aspecto.
       Com a revolução da informática e da comunicação, o ser humano passa a ser onipresente, onisciente, ser causa de quase todos os efeitos, pelo menos do ponto vista social, é como se ele de fato assumisse a posição que já foi do Creador...a de Criar! Criar coisas, criar quase tudo. E isso tem gerado mudanças demasiadamente significativas, levando a uma ruptura do pensar humano, levantando dúvidas, perguntas que jamais foram perguntadas, levando à reflexões e abstrações que há poucos anos seriam imagináveis, inalcansáveis ao pensamento humano. Mais que isso, tem mexido com gerações -  todas as anteriores que ainda existem, as que estão surgindo e as que surgirão, mas tudo isso numa velocidade e numa capacidade de impactar sem igual, talvez por isso, sejam as mais radicais revoluções existentes na história da raça homo-sapiens. Será que ao menos temos uma vaga ideia de como nosso modo de vida se tornou dependente de tudo isso?! Será que ainda lembramos de como era antes de tudo, do celular do computador ou da internet?  Será ainda concebível a política, a economia, as relações sociais sem isso? Estamos preparados para lidar com tamanha transformação? Estar no Brasil e falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo de forma imediata, namorar, conversar, discutir, interagir através de orkut’s, blogs, facebook’s, e-mail’s, sítios, etc. A velocidade, a quantidade e a qualidade de informações é algo estupendo, tudo isso gera conseqüências até mesmo imprevisíveis. A questão é; a nossa vida melhorou? O homem está mais feliz atualmente? O homem que conhece bem mais do seu semelhante já desvendou os maiores mistérios e segredos de si, seja no corpo ou na mente? O ser humano aprendeu tudo o que tinha para aprender com experiências dolorosas do passado? Um olhar menos atento e mais superficial logo dirá -  bobagem a resposta é fácil: claro que SIM, temos tantas coisas que facilitam a nossa existência que não tínhamos antes, tudo avançou, da sociologia à medicina e por aí vai!
     Pois vejamos, a OMS insiste afirmar ano após ano que a doença que mais atinge ao ser contemporâneo é a depressão, os índices de suicídio, de dependentes de remédios e drogas de todas as espécies só aumentam, ainda temos milhões de pessoas no mundo morrendo à fome, que não tem acesso as mínimas condições de vida, o homem ainda está em guerra por todas as partes do mundo, ainda vive de forma tribal, sectarista e auto-destrutiva, e mais que nunca está escravizado ao dinheiro. Não vemos mais cultura nas pessoas, elas não lêem mais que antigamente, e se a expectativa de vida aumentou significativamente, nunca antes foram vistas tantas doenças e epidemias. Se antes o homem era escravo de outro homem, ( não que ainda não exista escravidão), atualmente ele é totalmente escravo de um modelo, de uma idéia, ideologia, de um sistema, que possui vertente econômica, social e política. Muitos festejam e se orgulham da vitoria que chamam de total e absoluta do Capitalismo. A solidão se instalou nos corações humanos, o ser humano tão onipresente e onisciente, talvez nunca antes tenha distado tanto de si mesmo e de seus iguais. A Raça se encontra em crise, e dá mostras claras de se encontrar em grande confusão e desequilíbrio, seja psicológico ou biológico, está aparentemente perdido, e as poucas lideranças que tem aparecido para indicar um novo caminho não têm sido suficientes. O SER está Só! Busca muitas vezes, de maneira desesperada e imatura à Deus, numa tentativa quase sadomasoquista de encontrar a si mesmo e retomar o caminho da felicidade, pois que tem perdido esperança e mostra estar decepcionado com as ciências, que tanto prometeram extirpar o sofrimento da Terra e não o conseguiram. Quando não é Deus que procuram, buscam satisfação imediata nos vícios e prazeres estapafúrdios que somente realçam todas essas mazelam a que nos referimos. O que está faltando? Qual a solução? Existe um modelo político-econômico auto-suficiente e perfeito capaz de gerar felicidade total ao homem? Todas essas perguntas e todas outras que vão à mesma direção tem por resposta uma única: A quarta revolução, ou Reforma Íntima!
        O homem atual se eleva a cima de quaisquer perspectivas antes imaginadas, porém sobre lacunas vulneráveis em terrenos de areia. Falta-lhe o básico e o óbvio, o autoconhecimento. É como se estivesse fazendo uma imensa curva para chegar a um ponto que sempre encontrou-se logo à sua frente, mas sua visão turva não lhe permitira enxergar antes. Desprendeu um grande esforço e dispensou doses cavalares de energia para começar a compreender a sua verdadeira natureza, objetivo e capacidade. Oras, autoconhecimento esse, que já é bem conhecido de nossos antigos, seja na Magna Grécia de Sócrates ou no Egito de Akhenaton, na Pérsia de Zoroastro ou na Índia dos Vedas,  na China de Lao-Tsé e Confúcio ou na Roma de Sêneca e os discípulos de Zenão,  que era grego por sinal. O homem na verdade não descobre nada, apenas relembra e se volta ao seu passado, que tantas vezes lhe parece um grande cofre fechado hermeticamente, mergulha no ocultismo-esoterismo de tradições bem antigas, ou busca dar uma nova interpretação ao judaísmo-cristianismo e islamismo, começa a  ver que nada poderia ou deveria ser desenvolvido e construído sem um completo auto-domínio. É esta revolução que está prestes a acontecer de fato, que falta, e não falta apenas para completar um lindo quebra-cabeça incompleto, mas porque é esta a  pedra angular que lhe facultará o gozo completo de suas faculdades e potencialidades, o que fatalmente resultará em felicidade e paz social. O ser passando a conhecer-se profundamente, passa a melhor ver sua realidade e seu mundo com tudo aquilo que lhe pertence. Desaparecem-se os sectarismos infantis, deixa-se de lado a busca incessante e ordinária por poder, pois que se compreende que numa sociedade que todos só querem ter e ter, falta para muita gente, mas numa sociedade em que todos preocupassem-se em dar e dar, todos receberiam em abundância, pois o Planeta Terra é abundante, o UNIVERSO  é abundante. Realmente aprendería-se que temos a mesmo origem e somos iguais, nosso DNA dá mostras claras disso.
       Mas esta mudança se torna cada vez mais perceptível e chama atenção de um número crescente de pessoas. E podemos perceber este movimento em quase todas as facetas sociais - na ciência a física quântica vem ensinar a pequenez do homem perante as leis do universo e a relatividade das mesmas dependendo do que é analisado, ao demonstrar que a matéria “não existe” e que é muito mais um conceito, uma idéia, já que é formada por átomos e partículas menores como quarks, neutrinos entre outros, e tudo isso  é energia, fazendo  modificar radicalmente nossas crenças e nosso papel no universo, na verdade derruba por completo qualquer desejo de se afirmar o que de fato é o universo, pelo menos por agora. A parte esotérica de todas as religiões tem aparecido e se tornado bem mais acessível e popular, trazendo novos paradigmas à religiosidade humana. A medicina tem andado a passos crescentes em direção ao Holismo, os movimentos sociais humanistas tem ganhado força, a luta contra o autoritarismo e corporativismo tem se intensificado, já não aceitamos como raça humana de maneira racional, os assassinatos, e mesmo naquelas sociedades que defendem ainda a pena de morte, é após um processo jurídico, que falho ou não, cada vez menos está sob a batuta pessoal de alguém. Nossa sociedade já rejeita sacrifícios humanos, a escravidão, a extorsão e a exploração do fraco pelo forte, mesmo que essas práticas tenham progredidos à formas mais sutis, já não se aceita de bom grado tudo isso! Sinal de que o homem se encontra mais consciente. Muitos ao lerem tudo isso debocharão, discordarão e até mesmo se revoltarão contra essas palavras, argumentando inclusive que estou caindo em contradição com o que foi afirmado linhas a cima e com as evidências que temos diariamente em nossos noticiários e cotidiano. Entretanto precisamos compreender o seguinte: como afirmava e demonstrou perfeitamente Marx, todo modelo traz em si, dialeticamente falando, o gérmen da sua antítese, logo com tanta destruição e desgraça, de forma simultânea inclusive, vemos nascer um movimento em direção oposta. Aí temos as ONG’s de defesa social, a busca pelos direitos humanos, movimentos de jovens inclusive de filantropia e assistência de diferentes maneiras, uma busca incessante por igualdade social e justiça. É a dualidade em plena ação. E como nos disse o nobre pensador, da tese e sua antítese, teremos uma síntese, que é o que ainda está para acontecer, ou seja, nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, na síntese encontraremos características tanto da tese como de sua antítese, todavia não é nem uma coisa nem outra. Se temos por um lado fanatismo religioso, temos do outro materialismo intenso, a síntese de tudo isso será uma religiosidade nunca antes experenciada pelo homem, uma ligação direta com a divindade, sem precisar de intermediários, seja de pessoas ou instituições, mas também não oprimiremos as ciências, que terão seus espaços, mas como algo concomitante na vida do ser, tanto a religião e a ciência deixarão de ser um fim intrínseco e passarão a ser meios de algo, à felicidade e o desenvolvimento humano. Se tivemos uma briga ferrenha entre capitalismo e socialismo e aparentemente o capitalismo venceu, temos um quase esgotamento da sociedade, virou um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir e gerar caos. Teremos muito em breve o nascimento de um modelo novo seja qual for o nome dado, sem grandes revoluções ou teóricos,  de forma natural, até mesmo porque será muito mais uma conseqüência de mudança de pensamento e paradigma do que uma ruptura completo com o passado como pretendia os antigos filósofos comunistas. Se tínhamos e ainda temos a exploração do homem pelo homem, teremos a partir de então a cooperação, a sustentabilidade,  projetos de desenvolvimento a longo prazo. Se tínhamos antigamente o isolamento de culturas, o preconceito ferrenho ao diferente, e  hoje estamos angustiados e aflitos com a globalização e a universalização da cultura em detrimento das particularidades regionais, teremos em breve, a fundição do todo com o particular, com a manutenção das singularidades e o desenvolvimento das sínteses em todo mundo. A Terra não será nunca um Planeta absolutamente homogêneo, todavia será bem mais coeso, harmônico e equilibrado.
       Tudo isso só será possível através desta quarta revolução, que se é verdade que ela é a única de cunho totalmente filosófico-abstrato, é também a única capaz de ensinar verdadeiramente o significado de paz social. É no autoconhecimento que o homem compreenderá melhor o sentido de termos já tão utilizados hoje em dia, como pró-atividade, alteridade, respeito às diferenças, crescimento nas desigualdades, complementaridade e simultaneidade. Como já fora ensinado no Egito Antigo nas escolas de mistérios dos sacerdotes, o que está em cima é igual ao que está em baixo, ou como diria Einstein, o micro-cosmo é a repetição do macro-cosmo, assim, sendo o homem biologicamente e fisicamente inclusive, é uma imitação do universo. Afinal tudo é energia, é composição distinta dos mesmos átomos e como nos ensinou Lavoisier, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, o carbono que compõe o diamante, substância mais dura conhecida do homem é o mesmo que compõe a frágil grafite, o carbono que compõe nossas células é o mesmo que está “dentro” das mais resistentes rochas. O oxigênio que nos dá vida, é o mesmo que mata microorganismos responsáveis pelo desenvolvimento dessa mesma vida orgânica no planeta. Eis a dualidade do mundo  que o homo sapiens-sapiens, parece finalmente aprender, a enxergar dentro de si, a se ver como parte do todo.  Além do mais, se fazemos parte de uma raça única e brilhante, pois somos capazes de nascer analfabetos e ignorantes, através do pensamento que desenvolve novas conexões cerebrais por conta das interações dos neurônios, aprendemos a falar, a abstrair, a raciocinar, a filosofar e desenvolver as maravilhas que conhecemos atualmente. Existe desafio e obstáculo maior que esse? Para muitos pedagogos modernos não!
      Oras, se podemos fazer tudo isso, será que é algo tão complicado se conhecer, reformar nosso íntimo, nossas idéias, conceitos, preconceitos, nossa cosmovisão e construir um novo paradigma que una ao invés de separar, que conquiste e coopere ao invés de explorar? Decerto que não, por isso se faz imediato a necessidade de empreendermos toda a nossa inteligência e todos os nossos esforços em prol disso. Quando isto tudo for plenamente praticado e aceito, uma certeza imediata -- a verdadeira realidade se descortinará perante nosso verdadeiros olhos, os do espírito! E lembrando, o tão famigerado Ponto de Mutação muito bem descrito e teorizado pelo brilhante físico teórico Fritjof Capra, está iminente, a menos de um palmo do nosso nariz, a bem da verdade ele já se iniciou, e como a hora mais escura da noite é a última hora da madrugada que antecede o nascer do esplendoroso Astro Iluminado, o Ponto de Mutação já começa a aparecer no horizonte com toda sua beleza púrpura!