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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Dilapidando o coração - formando o diamante sagrado





Alquimia


Isis Resende
Diz a tradição Antiga que para se ver a luz é preciso dar três passos de tamanhos diferentes. A Alquimia nos fala de três estágios: o Nigredo, o Albedo e o Rubedo.
Na primeira parte de “A Voz do Silêncio” é feita uma afirmação relacionada aos três estágios da tradição Alquímica, ao destacar que “três Salas, ó cansado peregrino, conduzem ao fim dos trabalhos. Três Salas, ó conquistador de Mara, te trarão através de três Estados até o Quarto, e daí até os sete Mundos, os Mundos do Descanso Eterno”. Jung nos explica, baseando-se na tradição Alquímica, que quando uma pessoa volta-se para si mesma, para o seu interior, a primeira coisa que encontra é a sua sombra, (seus defeitos, suas imperfeições, tudo o lixo que foi se acumulando no passar dos séculos). É preciso dar um pequeno passo para ver-se neste lodo, neste Nigredo, nesta Sala das Tristezas, também chamada Avidya. Há um momento em que a pessoa consegue equacionar a sua problemática maior e como num passe de mágica, as coisas começam a dar certo. É preciso dar um passo um pouco maior para que isto possa acontecer. Passa-se ao estágio do Albedo. 
Neste estágio há perigos. A Voz do Silêncio chama esta etapa de Sala de Instrução ou das Provações e coloca a respeito dela: “Nela a tua Alma encontrará as flores da vida, mas debaixo de cada flor uma serpente enrolada”. Evidentemente há alguma luz nesta Sala; se não, não teria sido possível abandonar o Nigredo. Nesta Sala se encontram as flores da vida, a beleza, aquilo que de uma certa forma funcionou para sair do Nigredo. Uma das serpentes óbvias desta etapa é vaidade, a pessoa se acha o máximo, porque efetivamente equacionou aquela problemática mais dura que o Nigredo representava. Neta Sala há um bem estar, fruto do equacionamento daquilo que mais machucava. Mas efetivamente ele ainda está muito longe da luz, é preciso dar um passo maior ainda para que seja possível a bênção da luz. Esclarece sobre o Albedo a Voz do Silêncio: “Acautela-te Lanoo, não vá tua Alma, entontecida pelo brilho ilusório, demorar-se enredar-se na sua luz enganadora. Esta luz brilha na jóia do grande enganador. Enfeitiça os sentidos, cega o espírito e deixa o incauto naufragado e sozinho”. Como já se resolveu uma parte do problema, daquilo que mais doía, acha-se que, com jogo de cintura, é possível ficar nesta Sala. Ali tudo é Albo, branco por isto, Albedo. Mas os desejos, as escórias, as fontes de sofrimento, os samskaras ou agregados, como diz o Budismo, ainda estão presentes. Para se passar à Terceira Sala., a Sala da Sabedoria, a Sala da verdadeira Theos Sophia, é preciso dar um passo maior ainda. “Deves despir-te de tuas escuras roupas de ilusão”, nos adverte a Voz do Silêncio, e efetivamente entrar no Rubedo. Rubro lembra fogo, a Sala de dissolução, da decantação, da queima das escórias que ainda existem, das escuras roupas de ilusão. Em “Luz no Caminho” encontramos a afirmação “antes que a alma possa erguer-se na presença dos Mestres, seus pés têm de ter sido lavados com o sangue do coração”. 
Os pés representam a parte do corpo que se encontra mais perto do chão, a natureza material, ela tem de ser lavada com o sangue do coração. Dói? Como queimar uma parte de nós mesmos sem doer? Mas sem este processo de queima a luz verdadeira é impossível, é preciso deixar queimar as escórias, todos os liames que temos com o mundo dos sentidos e da ilusão.  Nos explica HPB que o Sábio (aquele que reside na Terceira Sala) “não se detém nas regiões deleitosas dos sentidos”. Nós nos detemos, porque temos liames que nos unem a este mundo. É preciso queimar estes liames. Como? Podemos fazer uma analogia com uma mãe querendo ensinar o filho de um ano a andar, ela pode dizer muitas coisas, pode facilitar outras, mas a própria criança tem que aprender a andar.  Novamente, “O Sábio não dá ouvidos às vozes musicais da ilusão”. É preciso romper com os vínculos de ilusão. Como? Há diversas indicações, como mapas, disponíveis para quem quer que queira trilhar este caminho, mas é preciso ir lá ver e não ficar falando dos mapas, é preciso efetivamente se dispor a lutar, como Krishna disse a Arjuna.  Só então é possível que a pessoa veja a luz, depois de ter transmutado o chumbo em ouro, queimado todas as escórias, queimando a Grande Heresia da Separatividade.

J. Krishnamurti em 
Palestra realizada em Ojai, Califórnia, EUA, 1944.
O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros, através do assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas idéias de pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto. Sem conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não pode ser verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de si mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como pensar-sentir, então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si mesmo, a acumulação de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm base. Sem conhecer-se a si mesmo, você sempre será pego na incerteza, dependendo do humor, das circunstâncias. Sem entender-se a si mesmo completamente, você não pode pensar corretamente. Com certeza isto é óbvio. Se eu não sei quais são os meus motivos, minhas intenções, meu “background” (fundo), meus pensamentos-sentimentos particulares, como é que posso concordar ou discordar de outra pessoa? Como posso avaliar ou estabelecer minha relação com outra pessoa? Como posso descobrir qualquer coisa da vida se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim mesmo é uma tarefa enorme, que requer observação constante, uma vigilância meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da paz, dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade. Estas questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente. Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por eles mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem entender-se a si mesmo você não pode entender o todo. O autoconhecimento é o começo da sabedoria. É cultivado pela busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa (ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é a massa, é o resultado da massa. Se entrar dentro disto profundamente, você irá descobrir por si mesmo. que você é tanto o coletivo quanto o individual. É como um córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado desse constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas atividades mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que chamamos a multiplicidade? Você não tem pensamentos-sentimentos similares aos do seu vizinho? Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa, ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este antagonismo que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e conflito, crueldade e miséria. Mas se pudermos entender como o indivíduo, você, é parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos libertaremos de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de competir, de ter sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se tomar um seguidor ou um líder. Então veremos o problema da existência de modo diferente. E é importante entender isto profundamente.
Enquanto nos virmos como indivíduos, separados do todo, competindo, obstruindo, em oposição, sacrificando o coletivo pelo particular, ou sacrificando o particular pelo coletivo, todos aqueles problemas que surgem deste conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura, pois são o resultado do pensar-sentir incorreto. Agora, quando falo sobre o indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa. O que eu sou? Sou um resultado – sou o resultado do passado, de inúmeras camadas do passado, de uma série de causas-efeitos. E como posso estar em oposição ao todo, ao passado, quando sou o resultado daquilo tudo? Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não entender a mim mesmo, não apenas entender o que está fora da minha pele, objetivamente, mas subjetivamente, dentro da pele, como posso entender outra pessoa, o mundo? Entender a si mesmo requer desapego amável e tolerante.
Se você não entender a si mesmo, não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais, crenças e fórmulas, mas elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você deve conhecer-se a si mesmo para entender o presente – e através do presente, o passado. Do presente conhecido, as camadas escondidas do passado são descobertas, e esta descoberta é libertadora e criativa. O autoconhecimento requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de nós próprios – nós próprios sendo o organismo como um todo, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Eles não estão separados, mas interligados. É somente quando entendemos o organismo como um todo que podemos ir além – e podemos descobrir coisas mais adiante, maiores, mais vastas.
Mas sem este entendimento primário, sem colocar o alicerce correto para o pensar correto, não podemos prosseguir para alturas maiores. Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade de descobrir o que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo. Pois o que é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a um padrão do que deveríamos ser, ou cedermos a um anseio, produziremos certos resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria. Existe uma certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir positivo. De uma maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos positivamente nossas idéias em relação a outras pessoas, ou em relação a nossas próprias formulações. E, portanto, dependemos de autoridade, de circunstâncias, esperando com isto estabelecer uma série de idéias e ações positivas. Ao passo que se você examina, verá que existe concordância na negação; existe certeza no pensar negativo, que é a mais alta forma de pensar. Quando você descobrir a negação verdadeira e a concordância na negação, então poderá construir mais adiante no positivo. A descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim estão em nós. Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós, leva-nos à ilusão, ao sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro (de nós) requer autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do mundo, e somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo isso, e assim temos pouco tempo para estudar a nós mesmos. Estarmos profundamente cientes de nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de vir-a-ser, exige constante atenção interna. Sem o entendimento de nós mesmos, mecanismos superficiais de reforma social e econômica, mesmo que necessários e benéficos, não irão produzir unidade no mundo, mas somente maior confusão e miséria. Muitos de nós pensamos que a reforma econômica de uma ou outra forma vai trazer paz ao mundo; ou que a reforma social, ou uma religião especializada conquistando todas as outras vai trazer felicidade ao homem.
Acredito que haja algo como oitocentas ou mais seitas religiosas neste país, cada uma competindo, fazendo proselitismo. Vocês pensam que uma religião competitiva vai trazer paz, unidade e felicidade à humanidade? Pensam que qualquer religião especializada seja o Hinduísmo, o Budismo ou o Cristianismo, vai trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as religiões especializadas e descobrir a realidade por nós mesmos? Quando vemos o mundo explodido por bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele; quando o mundo está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e ideologias separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas continuar vivendo uma vida curta e morrendo – e esperar que algum bem, advenha disso. Nós não podemos deixar isso para os outros – trazer felicidade e paz à humanidade, pois a humanidade é nós mesmos, cada um de nós. Aonde se encontra a solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer profundo pensamento-sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver essa miséria. Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de dentro – e não ser meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa, então iremos encontrar uma resposta simples e direta. No estudo e, assim, no entendimento de nós mesmos, virá claridade e ordem. E só pode haver claridade no autoconhecimento, que nutre o pensar correto. O pensar correto vem antes da ação correta. Se nos tornarmos conscientes de nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde jorra o pensar correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá, sem distorções, todos os nossos pensamentos-sentimentos. Estar assim autoconscientes é extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a divagar e a estar distraídas. Suas divagações, suas distorções são de seu próprio interesse, suas próprias criações. No entendimento disto – e não meramente colocando isto de lado – vem o autoconhecimento e o pensar correto. É apenas por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou comparação, que vem o entendimento.

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