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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Dilapidando o coração - formando o diamante sagrado





Alquimia


Isis Resende
Diz a tradição Antiga que para se ver a luz é preciso dar três passos de tamanhos diferentes. A Alquimia nos fala de três estágios: o Nigredo, o Albedo e o Rubedo.
Na primeira parte de “A Voz do Silêncio” é feita uma afirmação relacionada aos três estágios da tradição Alquímica, ao destacar que “três Salas, ó cansado peregrino, conduzem ao fim dos trabalhos. Três Salas, ó conquistador de Mara, te trarão através de três Estados até o Quarto, e daí até os sete Mundos, os Mundos do Descanso Eterno”. Jung nos explica, baseando-se na tradição Alquímica, que quando uma pessoa volta-se para si mesma, para o seu interior, a primeira coisa que encontra é a sua sombra, (seus defeitos, suas imperfeições, tudo o lixo que foi se acumulando no passar dos séculos). É preciso dar um pequeno passo para ver-se neste lodo, neste Nigredo, nesta Sala das Tristezas, também chamada Avidya. Há um momento em que a pessoa consegue equacionar a sua problemática maior e como num passe de mágica, as coisas começam a dar certo. É preciso dar um passo um pouco maior para que isto possa acontecer. Passa-se ao estágio do Albedo. 
Neste estágio há perigos. A Voz do Silêncio chama esta etapa de Sala de Instrução ou das Provações e coloca a respeito dela: “Nela a tua Alma encontrará as flores da vida, mas debaixo de cada flor uma serpente enrolada”. Evidentemente há alguma luz nesta Sala; se não, não teria sido possível abandonar o Nigredo. Nesta Sala se encontram as flores da vida, a beleza, aquilo que de uma certa forma funcionou para sair do Nigredo. Uma das serpentes óbvias desta etapa é vaidade, a pessoa se acha o máximo, porque efetivamente equacionou aquela problemática mais dura que o Nigredo representava. Neta Sala há um bem estar, fruto do equacionamento daquilo que mais machucava. Mas efetivamente ele ainda está muito longe da luz, é preciso dar um passo maior ainda para que seja possível a bênção da luz. Esclarece sobre o Albedo a Voz do Silêncio: “Acautela-te Lanoo, não vá tua Alma, entontecida pelo brilho ilusório, demorar-se enredar-se na sua luz enganadora. Esta luz brilha na jóia do grande enganador. Enfeitiça os sentidos, cega o espírito e deixa o incauto naufragado e sozinho”. Como já se resolveu uma parte do problema, daquilo que mais doía, acha-se que, com jogo de cintura, é possível ficar nesta Sala. Ali tudo é Albo, branco por isto, Albedo. Mas os desejos, as escórias, as fontes de sofrimento, os samskaras ou agregados, como diz o Budismo, ainda estão presentes. Para se passar à Terceira Sala., a Sala da Sabedoria, a Sala da verdadeira Theos Sophia, é preciso dar um passo maior ainda. “Deves despir-te de tuas escuras roupas de ilusão”, nos adverte a Voz do Silêncio, e efetivamente entrar no Rubedo. Rubro lembra fogo, a Sala de dissolução, da decantação, da queima das escórias que ainda existem, das escuras roupas de ilusão. Em “Luz no Caminho” encontramos a afirmação “antes que a alma possa erguer-se na presença dos Mestres, seus pés têm de ter sido lavados com o sangue do coração”. 
Os pés representam a parte do corpo que se encontra mais perto do chão, a natureza material, ela tem de ser lavada com o sangue do coração. Dói? Como queimar uma parte de nós mesmos sem doer? Mas sem este processo de queima a luz verdadeira é impossível, é preciso deixar queimar as escórias, todos os liames que temos com o mundo dos sentidos e da ilusão.  Nos explica HPB que o Sábio (aquele que reside na Terceira Sala) “não se detém nas regiões deleitosas dos sentidos”. Nós nos detemos, porque temos liames que nos unem a este mundo. É preciso queimar estes liames. Como? Podemos fazer uma analogia com uma mãe querendo ensinar o filho de um ano a andar, ela pode dizer muitas coisas, pode facilitar outras, mas a própria criança tem que aprender a andar.  Novamente, “O Sábio não dá ouvidos às vozes musicais da ilusão”. É preciso romper com os vínculos de ilusão. Como? Há diversas indicações, como mapas, disponíveis para quem quer que queira trilhar este caminho, mas é preciso ir lá ver e não ficar falando dos mapas, é preciso efetivamente se dispor a lutar, como Krishna disse a Arjuna.  Só então é possível que a pessoa veja a luz, depois de ter transmutado o chumbo em ouro, queimado todas as escórias, queimando a Grande Heresia da Separatividade.

J. Krishnamurti em 
Palestra realizada em Ojai, Califórnia, EUA, 1944.
O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros, através do assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas idéias de pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto. Sem conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não pode ser verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de si mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como pensar-sentir, então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si mesmo, a acumulação de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm base. Sem conhecer-se a si mesmo, você sempre será pego na incerteza, dependendo do humor, das circunstâncias. Sem entender-se a si mesmo completamente, você não pode pensar corretamente. Com certeza isto é óbvio. Se eu não sei quais são os meus motivos, minhas intenções, meu “background” (fundo), meus pensamentos-sentimentos particulares, como é que posso concordar ou discordar de outra pessoa? Como posso avaliar ou estabelecer minha relação com outra pessoa? Como posso descobrir qualquer coisa da vida se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim mesmo é uma tarefa enorme, que requer observação constante, uma vigilância meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da paz, dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade. Estas questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente. Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por eles mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem entender-se a si mesmo você não pode entender o todo. O autoconhecimento é o começo da sabedoria. É cultivado pela busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa (ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é a massa, é o resultado da massa. Se entrar dentro disto profundamente, você irá descobrir por si mesmo. que você é tanto o coletivo quanto o individual. É como um córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado desse constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas atividades mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que chamamos a multiplicidade? Você não tem pensamentos-sentimentos similares aos do seu vizinho? Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa, ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este antagonismo que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e conflito, crueldade e miséria. Mas se pudermos entender como o indivíduo, você, é parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos libertaremos de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de competir, de ter sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se tomar um seguidor ou um líder. Então veremos o problema da existência de modo diferente. E é importante entender isto profundamente.
Enquanto nos virmos como indivíduos, separados do todo, competindo, obstruindo, em oposição, sacrificando o coletivo pelo particular, ou sacrificando o particular pelo coletivo, todos aqueles problemas que surgem deste conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura, pois são o resultado do pensar-sentir incorreto. Agora, quando falo sobre o indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa. O que eu sou? Sou um resultado – sou o resultado do passado, de inúmeras camadas do passado, de uma série de causas-efeitos. E como posso estar em oposição ao todo, ao passado, quando sou o resultado daquilo tudo? Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não entender a mim mesmo, não apenas entender o que está fora da minha pele, objetivamente, mas subjetivamente, dentro da pele, como posso entender outra pessoa, o mundo? Entender a si mesmo requer desapego amável e tolerante.
Se você não entender a si mesmo, não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais, crenças e fórmulas, mas elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você deve conhecer-se a si mesmo para entender o presente – e através do presente, o passado. Do presente conhecido, as camadas escondidas do passado são descobertas, e esta descoberta é libertadora e criativa. O autoconhecimento requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de nós próprios – nós próprios sendo o organismo como um todo, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Eles não estão separados, mas interligados. É somente quando entendemos o organismo como um todo que podemos ir além – e podemos descobrir coisas mais adiante, maiores, mais vastas.
Mas sem este entendimento primário, sem colocar o alicerce correto para o pensar correto, não podemos prosseguir para alturas maiores. Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade de descobrir o que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo. Pois o que é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a um padrão do que deveríamos ser, ou cedermos a um anseio, produziremos certos resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria. Existe uma certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir positivo. De uma maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos positivamente nossas idéias em relação a outras pessoas, ou em relação a nossas próprias formulações. E, portanto, dependemos de autoridade, de circunstâncias, esperando com isto estabelecer uma série de idéias e ações positivas. Ao passo que se você examina, verá que existe concordância na negação; existe certeza no pensar negativo, que é a mais alta forma de pensar. Quando você descobrir a negação verdadeira e a concordância na negação, então poderá construir mais adiante no positivo. A descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim estão em nós. Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós, leva-nos à ilusão, ao sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro (de nós) requer autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do mundo, e somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo isso, e assim temos pouco tempo para estudar a nós mesmos. Estarmos profundamente cientes de nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de vir-a-ser, exige constante atenção interna. Sem o entendimento de nós mesmos, mecanismos superficiais de reforma social e econômica, mesmo que necessários e benéficos, não irão produzir unidade no mundo, mas somente maior confusão e miséria. Muitos de nós pensamos que a reforma econômica de uma ou outra forma vai trazer paz ao mundo; ou que a reforma social, ou uma religião especializada conquistando todas as outras vai trazer felicidade ao homem.
Acredito que haja algo como oitocentas ou mais seitas religiosas neste país, cada uma competindo, fazendo proselitismo. Vocês pensam que uma religião competitiva vai trazer paz, unidade e felicidade à humanidade? Pensam que qualquer religião especializada seja o Hinduísmo, o Budismo ou o Cristianismo, vai trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as religiões especializadas e descobrir a realidade por nós mesmos? Quando vemos o mundo explodido por bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele; quando o mundo está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e ideologias separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas continuar vivendo uma vida curta e morrendo – e esperar que algum bem, advenha disso. Nós não podemos deixar isso para os outros – trazer felicidade e paz à humanidade, pois a humanidade é nós mesmos, cada um de nós. Aonde se encontra a solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer profundo pensamento-sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver essa miséria. Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de dentro – e não ser meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa, então iremos encontrar uma resposta simples e direta. No estudo e, assim, no entendimento de nós mesmos, virá claridade e ordem. E só pode haver claridade no autoconhecimento, que nutre o pensar correto. O pensar correto vem antes da ação correta. Se nos tornarmos conscientes de nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde jorra o pensar correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá, sem distorções, todos os nossos pensamentos-sentimentos. Estar assim autoconscientes é extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a divagar e a estar distraídas. Suas divagações, suas distorções são de seu próprio interesse, suas próprias criações. No entendimento disto – e não meramente colocando isto de lado – vem o autoconhecimento e o pensar correto. É apenas por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou comparação, que vem o entendimento.

SOBRE A BUSCA DA ESSÊNCIA DIVINA

"Há um tipo de experiência religiosa raramente acessível em sua total pureza. Dou a ela o nome de "religiosidade cósmica". É muito difícil falar a respeito desse sentimento para qualquer um que não o tenha vivenciado, especialmente porque não há nenhuma concepção antropomórfica de Deus correspondente a ele. O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas (...). A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja experimentar o Universo como um todo significativo.
(...) Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por essa religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da História humana se nutriam com essa forma superior de sentimento religioso.
Como esse sentimento religioso cósmico pode ser comunicado de pessoa a pessoa, uma vez que não se pode chegar a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertá-lo e mantê-lo vivo naqueles que lhe são receptivos.
Albert Einstein ("Como Vejo o Mundo")


O Que Está Por De Trás do Olho, da Mente do Ouvido E Da Mente?
"Tudo o que precisamos saber sobre a verdade pode ser encontrado nos Upanishads, mas há um problema em saber aonde olhar e na compreensão do que é encontrado. Um comentário esclarecido é essencial. O Kena Upanishad, por exemplo, é bastante curto e transmite o conhecimento de nossa verdadeira natureza de quatro maneiras diferentes, de acordo com a facilidade espiritual do ouvinte.
A primeira seção é a mais direta e sucinta, mas, consequentemente, aparentemente a mais difícil. O verso dois diz-nos que nós somos aquilo que possibilita ou capacita a mente etc..., e não a própria mente. Uma explicação bela e clara é fornecida por Swami Paramananda:
É o ouvido do ouvido, a mente da mente, a fala da fala, a vida da vida, o olho do olho. O sábio, livre ( dos sentidos e dos desjos mortais), depois de deixar este mundo, torna-se imortal. -(Kena Up.)
O homem comum ouve, vê e pensa, mas fica satisfeito em saber apenas o quanto possa ser conhecido através dos sentidos; não analisa e tenta encontrar o que está por trás do ouvido, do olho, ou da mente. Está completamente identificado com a sua Natureza Externa. Sua concepção não vai além do pequeno círculo de sua vida corporal, que diz respeito apenas ao homem exterior. Ele não tem consciência daquilo que dá capacidade aos seus sentidos e órgãos para executar suas tarefas.
Há uma vasta diferença entre a forma manifesta e Aquilo que se manifesta através da forma. Quando conhecemos Aquilo, nós não morreremos como o corpo. Aquele que se apega aos sentidos e as coisas que ão efêmeras,deve morrer muitas mortes; mas o homem que conhece o olho do olho, o ouvido do ouvido, tendo separado-se de sua natureza física, torna-se imortal.
A Imortalidade é alcançada quando o homem transcende sua natureza aparente e descobre aquela essência sutil, eterna e inesgotável que está dentro dele".
(Four Upanishads) - Dennis Waite- 5.000 anos de Advaita



"Lúcifer, o Espírito da Iluminação Intelectual e Liberdade de Pensamento é, metaforicamente, o farol orientador que ajuda o homem a encontrar o seu caminho por entre as rochas e bancos de areia da Vida. Pois Lúcifer, em seu aspecto mais elevado, é o Logos, e no mais baixo, o "Adversário", ambos refletidos em nosso Ego."

Helena Petrovna Blavatsky, A Doutrina Secreta.

Quando algumas pessoas, em determinado momento, percorrem verdadeiramente o caminho da autorrenúncia e da autodemolição, e isso na força do átomo do coração, elas emitem naturalmente uma irradiação. Esta irradiação liga-as aos mesmos valores radiativos de outras pessoas e assim se desenvolve um campo mais puro. Assim, pode-se dizer que vai surgindo uma aurora, a aurora de um dia em que se destacarão novos valores, a serviço de todos. Foi em um período como este que Hermes Trismegisto, o Três vezes Grande, pôde elevar a voz para a iluminação de muitos. É em um período como este que todos nós somos confrontados com a natureza superior de nossa alma, a natureza superior que habita dentro de nós, mas que não é nossa. Quem tem uma faísca como esta ardendo dentro de si sabe que o tempo já chegou. Todos os oásis de força-luz do sistema solar estão sendo profundamente tocados. Todos aqueles que são prisioneiros da natureza da morte e que se empenham e se esforçam seriamente para libertar-se são elevados a uma ordem superior.
(Jan van Rijckenborgh)

A Noite Escura da Alma: O Paradoxo Místico

Por SERGIO CARLOS CORVELLO - 

http://www.teosofia-liberdade.org.br/a-noite-escura-da-alma-o-paradoxo-mistico/

A Noite Escura da Alma: O Paradoxo MísticoAnálise da experiência mística que antecede à plena iluminação, segundo a doutrina de São João da Cruz  (Séc.16).

Sergio Carlos Covello

A “noite escura da alma” é metáfora de uma experiência mística que envolve paradoxo, porque essa experiência é iluminativa e, no entanto, obscurece a consciência e acarreta sofrimento. Para  extrair sentido dessa contradição, faz-se necessário examinar o rico simbolismo da noite no imaginário dos povos. Entre os mitos gregos, Noite é o nome de uma deusa, filha do deus Caos, o vazio primordial antes de serem ordenados os elementos do mundo. Essa deusa personifica as trevas superiores e é representada com um manto escuro, a percorrer o céu, enquanto seu irmão, Érebo, simboliza as trevas inferiores. A deusa Noite gerou várias divindades, algumas benéficas, outras maléficas, sendo a mais importante delas o Dia (Hêmera), a divindade que trouxe a luz ao universo. Também na tradição judaica, a noite apresenta ora um aspecto negativo, ora um aspecto positivo. No Gênesis, ela denomina as trevas, sendo inferior à luz: “E viu Deus que a luz era boa, e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à Luz Dia e às trevas, Noite (1.4-5)” . Em outras passagens, porém, a Bíblia ressalta o aspecto positivo da noite. Por exemplo, em Jó 35.10, lê-se que “Deus inspira canções de louvor durante a noite”. A noite é, portanto, o momento da inspiração divina. E em Salmos 19.2, a noite relaciona-se com a sabedoria: ” Uma noite – diz o salmista – revela conhecimento a outra noite”. Não por outra razão a coruja, pássaro notívago, representa, de longa data, a filosofia, simbolizando o saber e a clarividência. Na arte poética, a noite é geralmente evocada como o período propício ao romance, pois à noite, cessadas as atividades laborativas do dia, o ser humano pode ir livremente em busca do outro. Neste caso, a noite exerce fascínio: “Tudo tem suave encanto quando a noite vem”, diz a canção popular. Na esfera psíquica, a noite significa a face oculta da consciência, o inconsciente, que, durante o sono, geralmente à noite, vem à tela mental através de símbolos que expressam não só os desejos, mas também a sabedoria, a criatividade e as mais belas intuições.
Na teologia mística, a noite foi aos poucos adquirindo o sentido de estado de consciência com relação à Divindade, a eterna Incógnita envolta metaforicamente no manto negro da noite. “Deus habita as trevas” – dizem os místicos, porque nunca ninguém conseguiu ver Deus, nem Moisés e o povo eleito. Tudo o que sabemos sobre Deus são conceitos humanos. O homem presume que existe uma causa inteligente para o universo e chama a essa causa de Deus, atribuindo-lhe qualidades humanas (como a bondade, a justiça e a misericórdia). Cria, assim, Deus à sua imagem e semelhança. A teologia mística, ao contrário da teologia especulativa (baseada em conceitos e teorias), objetiva um conhecimento experimental – a posse interior de Deus pela contemplação que implica o despojamento do ego, visando à união da alma com “aquele que está além de todo ser e de todo saber”. A esse estado de despojamento os místicos alemães do século 14 chamaram de “noite escura”, expressão que foi consagrada 200 anos mais tarde pelo frade carmelita São João da Cruz, num poema lírico de oito estrofes em que o poeta relata a própria passagem por essa prova que antecede a plena iluminação. Nos comentários a esse poema, diz São João da Cruz que, mediante a noite escura, a alma se dispõe e encaminha para a divina união de amor. É possível explicar a jornada mística como a busca do Eu profundo, a dimensão expandida da consciência, para além do pequeno ego, de modo que a consciência individual se transforme em universal ou cósmica. Mas os místicos cristãos (e mesmo os não-cristãos teístas) consideram a ampliação da consciência como a união da alma com Deus, por analogia com o casamento humano, que é uma experiência transformadora na vida dos nubentes. Nessa etapa do desenvolvimento consciencial só entram as pessoas espiritualmente adiantadas, isto é, as que já se converteram para a sua dimensão maior e obtiveram algum grau de luz. Não se trata de período agradável, visto que é de provação. Segundo São João da Cruz, a noite escura consiste na mortificação dos sentidos e do espírito, por isso que produz abatimento, esgotamento mental e fadiga. Mas esse transe é altamente desejável, porque faz surgir o homem novo de consciência totalmente renovada. A passagem pela noite escura da alma encontra apoio nas escrituras bíblicas. Tanto no Antigo, como no Novo Testamento, há vários exemplos de pessoas santificadas que sofrem provação antes de receberem um grande benefício. A noite escura do Cristo teve início no Getsêmane, pouco antes de o Divino Mestre ser preso, e terminou na cruz com a sensação de abandono: ” Eli, Eli, lamá sabactâni” (MT 27.46).Graças, porém, à tormenta física e mental, Jesus de Nazaré ressurgiu como o Cristo Cósmico Eterno, dando ensejo a uma das mais influentes tradições religiosas do mundo.
Na expressão Noite Escura, que dá nome à poesia de São João da Cruz, estão implícitos os vários sentidos figurados da noite: o mitológico (geratriz da luz), o sapiencial ( momento da sabedoria e da inspiração divina), o poético (instante doce  do amor) e o psicológico (centro de consciência transcendente). A análise, ainda que sumária, dos belos versos do poema permitirá a melhor compreensão dessa fase do desenvolvimento da consciência, na visão poética do monge que fez da busca do Absoluto seu ideal de vida:

NOITE ESCURA

Canções de S. João da Cruz (1542-1591) que descrevem o modo pelo qual o místico chega ao estado de perfeição espiritual.
(1578)
1. Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,     (1)
Oh, ditosa ventura!
Saí sem ser notada, (2)
Já minha casa estando sossegada. (3)
2. Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,  (4)
Oh, ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.
3, Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia    (5)
Além da que no coração me ardia.
4. Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia, (6)
Em sítio onde ninguém aparecia. (7)
5. Oh, noite que me guiaste!
Oh, noite mais amável que a alvorada!
Oh, noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada! (8)
6. Em meu peito florido
Que, inteiro para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.
7. Da ameia a brisa amena, (9)
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.
8. Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado; (10)
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.(11)
(1) Trata-se de alma adiantada na espiritualidade, pois está incendiada do amor a Deus.
(2) Isto é, saiu de si, sem ser impedida pelos sentidos inferiores que compõem o ego.
(3) Casa sossegada: vida interior com pleno domínio das pulsões inferiores e das paixões menores.
(4) A escada mística da ascese rumo à Divindade. A escada joanina desdobra-se em 10 degraus.
(5) A luz da fé e do amor.
(6) Em sendo evoluída, a alma já conhecia a Divindade.
(7) O centro da alma, o espírito que é também sua parte mais alta.
(8) Pela união com a Luz a alma se transforma na Luz.
(9) Ameia: cada um dos arremates salientes, separados por intervalos regulares, construídos na parte mais alta do castelos, das torres e das muralhas que protegiam as cidades antigas. Vê-se que a alma subiu a escada para encontrar a Divindade.Brisa amena é sopro, símbolo do influxo espiritual de origem celeste. Mensageiro divino, o vento afasta as trevas. Na tradição bíblica, o “sopro de Deus” animou o primeiro homem. No poema, o sopro de Deus faz surgir o ser iluminado ( o novo homem que retornou à origem divina).
(10) Esquecida de si, quer dizer, com a atenção concentrada só no Amado.
(11) Sua inquietação desapareceu.