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sábado, 26 de dezembro de 2015

A MENSAGEM DO NATAL - POR RAUL BRANCO

O Natal é uma das comemorações mais populares da cultura ocidental. Dependendo do nível em que essa comemoração é feita a mensagem do Natal assume diferentes matizes. Em sua origem ela era eminentemente religiosa. Com o tempo, especialmente no último século, aspectos comerciais passaram a ter uma crescente primazia sobre a fundamentação histórico/religiosa da comemoração do nascimento do Cristo.
Mesmo quando as comemorações natalinas assumem o caráter de uma mera festa de ‘aniversário’, com ênfase nos aspectos comerciais e sociais, a mensagem do Natal apresenta um sentido mais profundo. A natureza divina, escondida no âmago de todos os seres e de todas as coisas, aproveita todas as ocasiões para se manifestar, ainda que timidamente, como ocorre nas festividades natalinas tradicionais. Em meio a todas as festas e comilanças costumeiras da ‘ceia de Natal’, algumas qualidades divinas se fazem sentir: (1) a generosidade na troca de presentes; (2) o acolhimento de parentes e amigos, mesmo aqueles um tanto distanciados; e (3) a alegria generalizada dos participantes.
Assim, para a grande maioria da população, a mensagem do Natal é de que a comemoração do nascimento do Filho de Deus é motivo de regozijo para todos, ainda que a razão para a alegria nem sempre seja entendida profundamente pelos participantes.
Antes de examinarmos a comemoração natalina em mais profundidade, convém lembrar que a historicidade da data do nascimento de Jesus está sujeita a grandes controvérsias. Até meados do século IV, grande parte dos cristãos, especialmente em Roma, comemorava o Natal em vinte e cinco de março. O Papa Júlio II, numa manobra eminentemente política, decretou, no ano 354, que o nascimento do Cristo seria comemorado em vinte e cinco de dezembro, para coincidir com a data em que era comemorado o nascimento de Mitra e de Baco. Como as comemorações de Mitra e Baco eram muito populares naquela época, as festividades natalinas dos cristãos entraram em sintonia com o sentimento popular daquele período do ano e passaram a refletir a alegria do povo romano com os tradicionais eventos pagãos.
Com isso, na prática, Jesus foi equiparado pela Igreja aos outros grandes representantes do Deus Sol na Terra, pois o dia vinte e cinco de dezembro coincide com o solstício de inverno no hemisfério norte, quando ocorre a noite mais longa do ano e, portanto, a escuridão é mais profunda. Nessa data, com o nascimento do sol, os dias passam a aumentar sua luminosidade gradativamente. Por isso, muitos dos grandes seres reconhecidos como portadores da Luz, independentemente da cultura e período histórico, são geralmente apresentados como tendo nascido naquela data simbólica.
Mas a questão histórica do nascimento do Cristo é bem mais complexa. Existem mais de 136 datas sugeridas por diferentes historiadores e grupos cristãos como sendo a verdadeira data do nascimento do Cristo. Assim, a historicidade do evento deixa de ser o fator principal da comemoração. A simbologia passa a ser mais relevante.
O segundo nível da mensagem do Natal é o entendimento do significado mais profundo da simbologia em que o nascimento do Deus criança é apresentado no relato evangélico e na iconografia cristã. Esse nível é especialmente importante para o número crescente de indivíduos que estão despertando para a busca espiritual e sentem em seus corações que existe mais na simbologia natalina do que as Igrejas ensinam aos seus fiéis e crentes.
Vejamos o significado dos principais símbolos natalinos. O nascimento do Filho de Deus é anunciado à Maria, pelo Arcanjo Gabriel. O Arcanjo da Anunciação representa o espírito recôndito no homem. Maria representa a inteligência divina, a alma espiritual em cada ser humano. Somente ela é capaz de ouvir a voz do espírito supremo que vive no interior dos interiores. O nascimento do Cristo infante representa o despertar do amor divino e da intuição. Como esse nascimento é inteiramente espiritual e transcende os planos materiais, ele é realmente imaculado. Por outro lado, no sentido astrológico, por ocasião do solstício de inverno, o sol nasce no horizonte no Signo de Virgem. Esse é outro significado do nascimento virginal de Cristo e de outros salvadores do mundo que são apresentados como nascendo nesta data.
José, o esposo de Maria, representa a mente formal, lógica do ser humano. Assim, os dois formam um par que abrange os dois aspectos da mente, concreta e abstrata. A mente formal, ainda que valiosa e imprescindível para nossa vida terrena, é incapaz de gerar a intuição. Portanto, José não é apresentado como sendo o ‘pai’ de Cristo, mas sim o seu padrasto. A mente concreta de um iniciado avançado é extremamente útil para sua ação no mundo. Portanto, José passa a cuidar amorosamente do infante com todo desvelo. Nesse sentido, os insights intuitivos (Cristo) nascem na mente abstrata (Maria), mas devem ser apresentados ao mundo pela mente formal (José), que reveste com palavras e conceitos a experiência iluminada interior.
Uma série de circunstâncias especiais, de natureza simbólica, cerca o relato bíblico do nascimento de Cristo. Belém, onde Cristo teria nascido, pode ser considerada como representando a humanidade, tanto em seu sentido espiritual como no material. A estalagem, onde o casal busca abrigo inicialmente, representa o lugar onde os interesses materiais pessoais são expressos (kama-manas). Conseqüentemente, é dito no relato evangélico que ela estava ‘cheia’. Assim, não era possível acomodar a divina família. Num paralelo apropriado, a mente ‘cheia’ de pensamentos e apegos materiais não oferece as condições necessárias para que a luz interior possa surgir. O maravilhoso nascimento da consciência crística não pode ocorrer no âmbito da mente mundana, dominada pela busca dos prazeres pessoais e pelo atributo da possessividade.
Portanto, o casal é encaminhado para o estábulo, simbolizando a mais completa humildade e distanciamento dos interesses do mundo. A manjedoura representa o corpo etérico, a fonte de vida e nutrição para o corpo do divino Ser que ali será colocado. Num outro sentido oculto, a manjedoura do estábulo representa um santuário secreto, desprezado pelas pessoas mundanas como um lugar de alojamento, mas usado para promover o nascimento místico em meio das augustas presenças dos pastores e dos magos.
Os pastores na iconografia não cuidam de animais, mas sim de almas. São os Irmãos mais Velhos da Humanidade que guiam aqueles que estão prontos para a grande transformação, descrita como o nascimento do Cristo. Os magos dirigem-se ao local do evento guiados por uma estrela, que simboliza a Luz do Iniciador Uno de nosso planeta, responsável pela aceitação e capacitação dos novos Iniciados. Esses magos representam a tríplice natureza superior, divina em verdade, do discípulo que está sendo iniciado, referida como atma, buddhi e manas, em sânscrito. Os presentes que conferem ao divino infante: ouro, incenso e mirra, representam a vontade espiritual, o amor/sabedoria e a inteligência superior. Com esses “presentes” o Iniciado, agora Cristificado, pode atuar no mundo tornando-se um auxiliar dos Grandes Seres no grande plano de salvação da humanidade.
Até mesmo os animais que se encontram no estábulo têm um significado simbólico. As vacas e ovelhas representam a natureza animal do homem, com seus desejos e paixões. Porém, na alegoria bíblica, esses animais são inteiramente domesticados, ou seja, superaram seu estado selvagem e agora servem docilmente seu divino Senhor. Mais tarde na vida do Cristo, outro animal, no caso um jumentinho totalmente domesticado, servirá como o veículo necessário para levar o Cristo até a Cidade Santa, que simboliza o Reino dos Céus. Ou seja, para que o ser humano possa entrar na consciência da União com Deus, o Reino do Céu, ele necessita que seu quaternário inferior, seus quatro corpos para atuação no mundo terreno, seja inteiramente domesticado para seguir com eficiência as ordens de seu Senhor.
A mensagem do Natal para todo aquele que procura entender o significado mais profundo por trás do relato bíblico do nascimento do Cristo é de que esse evento não foi restrito no tempo e no espaço ao Cristo histórico. Muito pelo contrário, o propósito desse relato é estender um convite permanente a todo aquele que for tocado por seu simbolismo, para se preparar para o nascimento do Cristo em seu próprio coração.
Nesse segundo nível a mensagem do Natal é um convite para que venhamos nos juntar ao Cristo histórico, para nos tornarmos também ‘pescadores de homens’.
O nível mais sutil e profundo da mensagem do Natal é dirigido àqueles poucos homens e mulheres que experimentam a divina insatisfação e se determinam a ‘nascer de novo’, como o Mestre exortou a Nicodemos, que simboliza todo aspirante que anseia dar o próximo passo na Senda. Pode parecer estranho que a insatisfação tenha um papel relevante na vida de um aspirante. Porém, enquanto o indivíduo não estiver insatisfeito com a vida deste mundo, com seus prazeres sensuais, consumismo, apego aos bens materiais, ambição e status, ele não terá o incentivo para proceder à mudança radical de vida implícita na Senda espiritual.
Esse estágio já foi aludido de forma enfática por um profundo místico alemão, que escreveu, sob o pseudônimo de Angelus Sillesius, uma mensagem que até hoje ecoa nos corações das almas maduras: “Ainda que Cristo venha a nascer mil vezes em Belém, mas não em teu coração, continuarás triste e miserável. A cruz do Gólgota contemplas em vão, a menos que ela seja erguida em teu coração.”
O conhecimento teórico do significado simbólico da iconografia bíblica do nascimento de Cristo tem como propósito nos incentivar a trazer esse conhecimento para a nossa experiência prática. Assim como nossa fome física é estimulada pela visão de um lauto banquete e reforçada pelo aroma dos diferentes pratos, a fome só será saciada se tivermos a determinação de ‘pagar o preço’ para nos sentarmos à mesa do banquete. Nesse caso, o preço simbólico é a renúncia do mundo terreno, expressa por Jesus como “Não a minha, mas a Tua vontade seja feita Senhor”. O amor e a entrega a Deus são as duas pernas simbólicas com que o místico caminha resolutamente rumo a sua meta de união com Deus.
Portanto, o terceiro nível da mensagem do Natal implica em nossa transformação de pessoas que meramente ‘assistem’ às comemorações de mais um aniversário do nascimento do Cristo histórico, em discípulos determinados em se tornarem participantes ativos do eterno drama encenado. O nascimento do Cristo não mais será visto como algo ocorrendo no exterior, mas como a coroação de nosso propósito de vida, o nascimento de Cristo em nosso coração. Com isso ‘entraremos na corrente’, como dizem nossos irmãos do oriente, e teremos a garantia de ‘alcançarmos a outra margem’, quando então nos tornaremos ‘homens justos, alçados à medida da estatura da Plenitude de Cristo’.

A mensagem do Natal é atemporal. Ressoa eternamente em nossos corações. Cabe a cada um de nós decidir em que nível de mensagem queremos nos sintonizar. Que a Luz de Cristo ilumine nossos corações, que a Energia do Pai nos dê força e determinação para trilharmos a Senda até sua gloriosa meta final e que a inteligência da Divina Mãe nos guie para que possamos superar todos os obstáculos que continuarão a surgir ao longo do caminho.



Raul Branco é gaúcho, nascido em Vacaria em 1938. 
Formou-se em economia no Rio de Janeiro e obteve o doutorado na Universidade de McGill, no Canadá.  Lecionou em várias universidades dos Estados Unidos, trabalhou na Organização das Nações Unidas (ONU), em New York, Genebra e Roma, por 13 anos, participando de diversas conferências internacionais e missões de assistência técnica. De volta ao Brasil trabalhou em várias funções no Ministério de Minas e Energia. Atualmente está aposentado e vive em Brasília.  Seu despertar espiritual ocorreu aos 49 anos, quando começou a buscar no yoga, no budismo, no vedanta e na teosofia respostas para as incessantes perguntas de seu coração. Descobriu, finalmente, que não precisava buscar longe o que estava perto, ou seja, o cristianismo primitivo pouco conhecido em nossa tradição cristã.  
Traduziu e comentou um antigo texto da tradição esotérica cristã, publicado como Pistis Sophia, os Mistérios de Jesus, e escreveu o livro Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã.  
Escreveu vários artigos e faz palestras sobre a vida espiritual e o cristianismo.